Crônicas De Saturno #001 | 01/06/2023 | Um Dia Terei Coragem De Encaminhar Isso Aos Meus Pais
A terapia e o tempo estão me ajudando a calar a boca do meu ego aos poucos. Conseguir colocar as coisas em texto já é uma vitória. Se um dia meus pais chegarem a ler isso beleza, se não, foda-se!
Frequentemente me deparo no espelho não sabendo quem sou.
Desde pequeno os meus pais diziam para os outros que eu era o “menino de ouro” deles, porém nunca me senti genuinamente desta forma.
Recentemente ando tomando consciência da classe que fiz parte. Reparo que vim do berço de uma família em plena ascensão social, a narrativa de minha história foi com o plano de fundo de negligência parental.
Família com dois meio-irmãos (ambos mais velhos) e uma irmã (essa mais nova que eu), tendo sido o terceiro fez com que me tornasse um limbo. Três meninos é demais, já uma menina se faz justificável mais uma gravidez.
Não é sendo ingrato, é louvável terem procurado prover coisas boas para todos em sua casa. Meu pai principalmente, não haveria justificativa de tratar bem filhos que não carregavam seu sangue, mas sempre ficou uma incógnita se estavam juntos por sobrevivência ou por amor de fato. Acompanhar de camarote um processo de separação tão caótico como o de vocês levantam minhas dúvidas.
Não tenho o mérito de julgar as interpretações que ambos estão tendo um do outro atualmente, se a situação está insustentável neste ponto é porque lá atrás já não estava boa, o que faltou é terem diálogo e estomago de aceitar isso antes.
Pensar que estão presos num casamento por falta de tempo, disposição, vontade de conversar e estarem presentes um com o outro tornou as dinâmicas dos meus relacionamentos totalmente inversas de tudo o que esperavam de mim.
Sou mil vezes mais reservado, poligâmico e com uma disforia de expressão de gênero que me assombra todos os malditos dias. Toda vez que abro os olhos pela manhã sei que tenho que enfrentar essas barreiras que me ajudaram a construir inconscientemente.
As ideias, comportamentos e jeitos conservadores que aprendi a ter me matam. Nunca pude contar sobre o que realmente sentia, acontecia ou passava em minha vida. Os bullyings que sabem não são um quinto do que tive que aprender a esconder.
Era horrível para minha cabeça vê-los indo na casa dos outros fazer um barraco, chamarem a polícia por ser constrangido por outra criança ter me chamado de “viadinho”, isso porque não era forte o suficiente de me defender sozinho, afinal um homem nato deveria conseguir.
Adivinhem, não sou um homem, nunca fui e nunca serei. E essa pressão de performar como um acaba comigo, ser visto como um acaba comigo.
Lentamente o imaginário de “masculino” ajudou a gente se afastar. O meio que a gente frequentou, a mídia que a gente consumiu, toda a sociedade que a gente conviveu naquela época nos contaminou. No fim quero que reparem isso.
Não será eu a convencê-los a pararem de tentarem impor rédeas um ao outro, a natureza de ambos é muito particular, não os cabem o papel de “casal tradicional”, homem provedor e mulher submissa dona do lar.
Entre o azul e o rosa; o forte e o delicado; o que queria que escolhessem é terem respeito mútuo e amor-próprio.
De todas as lições que me ensinaram, a única que gostaria que lembrassem de seguir é a de se afastarem.






