Crônicas De Saturno #002 | 03/06/2023 | O Dia Em Que Decidi Abandonar A Babilônia Paulistana, Do Sonho As Chamas
Minha carta de amor e ódio para a Capital do Estado que nasci e cresci.
Não faz tanto tempo que existiu uma criança de dezessete anos indo para Capital de São Paulo fazer a matrícula de seu primeiro curso técnico. Nessa história a criança tinha um pai, ele se propôs a auxiliar o filho na jornada de efetuar a matrícula. Chegando na Capital se perderam nas linhas de trem e metrô, o celular de ambos não havia internet. Orientados pelo sol rodaram o bairro da Mooca inteiro para conseguir achar o Senai, acharam, porém, o errado. O sol cobra seu preço, o pai sai queimado, irritados com a situação brigam. Quase no fim do dia, após encontrarem uma alma que os ajudou, finalmente acharam a escola certa, fazem a matrícula e conseguem concluir o plot daquele episódio.
Essa história toda aconteceu comigo há alguns anos. O que me marcou foi a mudança de água para o vinho que se sucedeu após esse arco. No primeiro dia de aula meu pai simplesmente profere a seguinte frase “te mostrei o caminho, agora siga sozinho”. Simplesmente me deu o dinheiro do transporte, uns trocados para comer e me deixou para ir. Em diante reparei que minha juventude estava morrendo e a fase adulta desabrochando.
O tempo foi passando, as aulas seguindo, devagar pude cultivar alguns sonhos estando mais inserido na dinâmica daquela cidade. Pude me imaginar crescendo; construindo uma vida (talvez família); uma carreira; ser reconhecido na multidão e por vezes dominar a famosa selva de pedra cinza… Bem, não é preciso dizer que o formato que Hollywood me vendeu de independência não foi exatamente o que vivi no meu período lá.
Quando entro na faculdade e me mudo de vez seguem os cinco anos mais turbulentos de minha estadia na Capital. Pude experienciar fome; ter outras pessoas invadindo meu espaço pessoal; receber calote de um ex-empregador; ser demitido; sofrer homofobia… Tudo isso com o peso da vergonha de pedir ajuda, afinal mesmo meus pais podendo me amparar as falas que proferiam em caráter de brincadeira escondia um fundo de verdade “por que está lá se não consegue nada melhor?”.
Reconheço que essa fase foi importante para meu crescimento, entretanto desde que pisei naquela cidade estava mais era materializando um vazio desproporcional ao tamanho de minha mente e peito.
Conforme o amadurecimento veio dando sinais reparei que não era vergonha desistir de um sonho. O capitalismo joga de maneira a te colocar num lugar de vergonha ou errado por desistir, mas já que tudo é sobre custos, o custo emocional também deve se fazer presente, não só o financeiro. E gradualmente a magia daquela cidade foi se esvaindo.
Desde que saí de São Paulo reparo que ando conseguindo mais coisas, prover mais para dentro de casa; poder me desenvolver; poder ser; poder-poder, literalmente.
Notei que idealizei coisas que não eram genuinamente minhas, foram mais armadilhas adornadas em arranjos bonitos para me prender. Queria ter tido mais tempo para pensar e planejar as coisas para não ter caído em várias dessas ciladas.
Não direi que desistir foi fácil, muito pelo contrário, acredito que foi o mais próximo que pude viver de desassociação, não me sentia vivo, era um robô em modo automático unicamente programado para suportar sobreviver. Até hoje passa uns “e se” na minha cabeça, todavia tento não deixar isso me dominar.
Acredito que as lagrimas que chorei fizeram um intemperismo nas colinas da minha solidão. Desejo algum dia a transformar em uma rocha, uma Rosetta, e quem sabe algum dia gravar frases mais bonitas. Contudo, eu só tenho uma certeza: existe um mundo inteiro lá fora de coisas, cidades, pessoas e situações melhores e boas para explorar e viver, quero hoje procurar experimentar tudo isso.






