Crônicas De Saturno #004 | 17/06/2023 | A Morte Do Pássaro Cuco
Sobre o prazer deturpado de uma justiça que nunca virá.
Já tem um bom tempo que descobri a natureza mórbida do pássaro cuco em um desses vídeos de curiosidades biológicas. Sinceramente, da primeira vez não dei muita importância, era um daqueles conteúdos em alta sugeridos pelo algoritmo do meu feed.
Passei uma, duas, três incontáveis vezes ignorando. Afinal, nunca fui aficionado por pássaros, acho eles bonitinhos, mas se cogitar conversarmos sobre eles restringir-me-ia ao básico, não conseguiria me aprofundar na poética da sua existência, nesse quesito ignorância é meu lema.
Todavia o primeiro vídeo que realmente me fisgou foi um daquelas chamadas clichês quase sensacionalistas do tipo “você não vai acreditar no comportamento bizarro desse pássaro” e realmente era bizarro. Um bichinho que antes me passava uma imagem inocente, pois sempre fora retratado em desenhos como um anunciador em relógios, passou a ser um parasita impiedoso.
Resumindo bem imprecisamente, esse pássaro não faz o próprio ninho, ele visa colocar os ovos em ninhadas de outras aves para que eles o cuide. A questão não seria esse se a história acabasse aqui, o choque vem agora, o cuco normalmente nasce antes dos outros da ninhada simplesmente para exercer seu instinto, jogar os demais ovos para fora do nial para ser o único a receber comida e sobreviver.
Esse fato me impressionou. Não sou do tipo que acompanha programas que exploram a realidade do reino animal por me causarem um mal-estar. Desde pequeno já me incomodava a representação explícita, quase sádica, de uma besta comendo a outra. O sangue, as vísceras, a filmagem dramática de uma perseguição acompanhada em seguida do close no rosto frio de uma presa morta, tendo sua carne arrancada por dentes... Me arrepio da imagem que minha cabeça constrói.
Após ver esse vídeo o existir dessa ave ficou adormecida em meu subconsciente, entretanto não mais. Anda ressurgindo na minha timeline um objeto estranho que despertou minha atenção: pessoas comentando e/ou caçoando das tentativas falhas de sobrevivência dessa criatura.
Vão desde cucos que não estão sendo alimentados pelas mães-vítimas; tentativas falhas de assassinar ovos irmãos; embriões sendo jogados para fora do ninho invadido…
Compreendo não fazer sentido aplicar valores morais humanos em um comportamento puramente instintivo, contudo a dopamina que sinto quando um desses biólogos diz que um filhote desses morrerá, é estranhamente satisfatório. Nunca havia cogitado que encarnaria um inquisitor.
Não consigo deixar de fazer o paralelo com a pena de morte, especialmente para pessoas que cometeram crimes. O êxtase no olhar daqueles que acreditam nessa ideologia, parece que ouvem um doce som deturpado da “justiça”.
Minha visão não passa de meros achismos, tenho a capacidade zero de debater algo relacionado a esse assunto. Porém, encarar pela primeira vez o sentimento de bem-estar ao imaginar a morte do outro, mesmo ele sendo uma ave, demostra que as grades da cela que seguram minha ira podem ser muito mais finas do que imaginei.






