Crônicas De Saturno #006 | 03/10/2023 | Sonhos Gelados, Desejos Ardentes
Acho que essa posso considerar minha real primeira crônica, me orgulhei muito desse texto, só desejava um revisor humano além do virtual
Era um magnífico festival de coral, celebrava a abertura da sua vigésima-quinta edição, uma noite pacata, sem nuvens no céu, clima ameno, não aparentava ter havido mais cedo uma das ondas de calor mais insuportáveis que já senti.
Amo óleo corporal, entretanto reconheço que se por algum descuido passasse aquele dia e saísse ao encontro do sol sem dúvida minha pele tornaria a uma pururuca de tão quente que o mundo se encontrava. Todavia, foi revelador, notei precisar me entregar a devoção e práticas cristãs quanto antes, afinal se o inferno for um-terço do calor que senti nesse dia, admito que estaria em súplica pela redenção de vosso senhor por minha alma.
Passar as horas com um mísero ventilador de mesa ao meu lado foi um castigo superior à vez que minha mãe puniu minha ingenuidade de ofertar algumas mudas de nosso jardim para a vizinha sem sua consulta. Senti como um réu na espera de sua sentença enquanto meu pai não chegava com seu veredito. Reconheço minha fraqueza na batalha de tolerar uma piscina de lava quente por toda eternidade.
Foi um alívio ainda melhor entrar na sala do anfiteatro e sentir o ar-condicionado, todavia por pouco tempo, notava haver quedas constantes no desempenho do mesmo, não sei se por falha técnica ou ajuste proposital, só sei que a alegria de me imaginar em um comercial de iogurte que vira sorvete não durou muito.
Com o início das anunciações reparei que estava em uma reinauguração do espaço, sendo aquele festival seu primeiro evento após reformas. Perguntava quais reformas exatamente, o ar-condicionado frustrou minha fantasia, as paredes estavam a meia pintura, descascadas por vez, e quando o subprefeito se pós a ruminar uma espécie de propaganda eleitoral barata de sua falta de gestão fez com que revirasse os olhos.
Subia secretário de cultura no palco, anunciador, subprefeito, anunciador, diretora do evento, anunciador, patrocinador, anunciador… Um vai e vem constante, praticidade e dinamismo foi a última coisa proposta nessa reunião de roteiro.
O semblante do anunciador migrava de uma seriedade artificial emposta pela circunstância de seu trabalho para uma deliciosa expressão de tédio e frustração. “O que estou fazendo aqui?” ecoava pelas paredes daquele horroroso anfiteatro.
O show iniciou. Seguiu bem uma, duas apresentações, da terceira em diante um conjunto de 4 seres, o que chamam de família: papai, mamãe, Enzo e Valentina incorporaram alguma espécie de entidade, um encosto talvez, que fez a minha estadia naquele resto de evento um tormento.
Sei que a vergonha se fez presente como um medo que os paralisavam de sair de seus lugares, não é fácil pedir licença para passar de uma fileira de pernas, porém poderiam ao menos terem calado a boca nas duas horas que se seguiram. O meu sonho doce de um paraíso de sorvete e iogurte se tornou uma irá, uma vontade de sessar a geração daquela família como em um filme de Tarantino, uma catana bem afiada em seus pescoços.
Era lírica em minha frente e múrmuros paralelos incessantes atrás, a pergunta que faço é a seguinte, necessita levar seus catarrentos para todo lugar? Ambos usavam um conjuntinho Lacoste de no mínimo trezentos reais cada, falta de dinheiro não era, mas de senso, oh como faltava. Leve seus filhos para ter cultura, contudo também os eduquem para não quererem chamar mais atenção que um coral inteiro.
De verdade, se não fosse por um pote de “alimento lácteo sabor abacaxi com caramelo” que compramos na volta, faria dos galhos daquela árvore genealógica a minha nova de decoração de estante.






