Ter chegado até 2024 foi um processo de ressignificação pessoal. Vivenciar a perda e o abandono em múltiplas áreas da vida simultaneamente me fez travar de medo.
O fim de um contrato de estágio; a consagração do divórcio dos meus pais; o encerramento das seções de terapia no SUS… Todos esses eventos semearam uma incerteza enquanto minha percepção de futuro.
Cada vez mais me ausentava da vida, todas as manhãs era horrendo olhar no espelho e desconhecer o rosto ali, como uma casca vazia ambulante. Mente e corpo eram meros objetos práticos que ligavam a esse plano, almejava ir para fora do meu coração.
No final do dia poucas coisas conectavam com a realidade, reconheço que transformei o sexo em um escape pouco saudável para reparar a falta do vigor.
Às vezes que um pouco de energia chuviscava, acompanhada vinha a autossabotagem, impedido era de entender o porquê de nada agradar. Gradualmente notei que resquícios da pandemia ainda rondavam minha psique, nada fisicamente significativo aconteceu ao longo desses anos de infortúnio, todavia condicionou a ser um animal acuado.
Será o caso onde remeterá um daqueles autores/artistas sequelados por um período histórico coletivo de terror? A falta de controle ou influência sobre as calamidades que estão por vir apontam a resposta ao desamparo. Queria ser um daqueles jovens que vivem em prol de exterminar sua vida prematuramente a um precoce senhor que necessita pensar sobre a finitude diariamente.
Pelo menos isso tem me colocado no chão, sinto mais satisfeito de viver em prol do bem-estar dos outros. Já havia comentado ao meu marido que só a ideia de me imaginar ser a “dona de casa” não soa mais ofensivo, encontraria como a paz e normalidade que tanto preciso no dia a dia.
Vezes pego fantasiando em roubar a realidade de um super-rico tipo o filme Saltburn, é inconcebível a meu ver se aquietar com uma vida daquelas, cobiço a futilidade e inconsequência de apreciar a performática de cena do mundo em chamas ao passo de degustar uma amanteigada pipoca.
Indago se deveria expor essa minha resolução de ano-novo, contudo basta de estar assim, esse ano serei ainda mais ruim, vulgar e inútil do que nunca!






