Feriado de Finados: um dia chuvoso, frio e sem luz na minha querida Sarandi. A tempestade da noite passada levou tudo, inclusive a esperança de passar a segunda-feira em meu berço esplêndido, vulgo, cama, assistindo a mais um episódio de Twin Peaks (série que estou há uns bons trinta anos atrasado para ver). Não importa o quanto eu reze ou ligue para a Copel; em breve, a bateria do meu celular falecerá de igual maneira, dando um novo sentido a essa data pouco festiva.
Sem a possibilidade de cada um ficar no seu canto, existindo ao bel-prazer enquanto as horas passam, o debate da vez aqui em casa recaiu sobre a divisão das tarefas domésticas (plot recorrente dos roteiristas dessa minha minissérie). Se eu fosse avaliar o embate no quesito entretenimento, daria nota 2 de 5 no Letterboxd. Faltaram emoção, drama e complexidade argumentativa — elementos que prezo numa boa trama. Infelizmente, sobrou a mim, protagonista, mais uma vez lavar o banheiro essa semana.
Tentei ler algumas páginas dos calhamaços que trouxe da biblioteca. Todos de crônicas, um formato que me agrada — caso não tenha notado. Acabaram vindo apenas a passeio, passando o dia encostados num canto enquanto eu dormia. Arnaldo Jabor sentiria orgulho de mim se visse a "festa da salsicha" que eu protagonizava nos braços de Morfeu. Talvez a temática LGBT com todas as suas siglas (QIAPN+) não o agradasse tanto, mas, para os entendedores, foi um deleite bem molhado.
Dapertado, constatei o óbvio: a luz ainda não havia voltado. Restou-me o banho gelado. Arrependimento imediato, claro, mas ao menos deixei de me assemelhar a um francês no quesito odor. A semelhança europeia ficou restrita ao sentimento de revolta: a vontade era guilhotinar todos os culpados por assassinar o meu finado feriado de ferinados.


